A Inutilidade de Guerras e Revoluções

As guerras e as revoluções há sempre uma ou outra em curso chegam, na leitura dos seus efeitos, a causar não horror mas tédio.

Não é a crueldade de todos aqueles mortos e feridos, o sacrifício de todos os que morrem batendo-se, ou são mortos sem que se batam, que pesa duramente na alma: é a estupidez que sacrifica vidas e haveres a qualquer coisa inevitavelmente inútil.

Todos os ideais e todas as ambições são um desvairo de comadres homens.
Não há império que valha que por ele se parta uma boneca de criança.
Não há ideal que mereça o sacrifício de um comboio de lata.

Que império é útil ou que ideal profícuo?
Tudo é humanidade, e a humanidade é sempre a mesma – variável mas inaperfeiçoável, oscilante mas improgressiva.

Perante o curso inimplorável das coisas, a vida que tivemos sem saber como e perderemos sem saber quando, o jogo de mil xadrezes que é a vida em comum e luta, o tédio de contemplar sem utilidade o que se não realiza nunca que pode fazer o sábio senão pedir o repouso, o não ter que pensar em viver, pois basta ter que viver, um pouco de lugar ao sol e ao ar e ao menos o sonho de que há paz do lado de lá dos montes.

Fernando Pessoa, in “Livro do Desassossego”

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Um comentário sobre “A Inutilidade de Guerras e Revoluções

  1. concordo plenamente . Esta semana terminei de assistir ” A Guerra do Vietnã ” , pela Netflix. Uma porrada de mais de 10 horas sobre este episódio terrivel, que consumiu , não um comboio de lata , ou uma boneca partida de criança.
    -milhões de tudo foram desperdiçados : vidas humanas, florestas, helicopteros, dolares , yuans e rublos , armamentos.
    ficou um gosto amargo para todos : para os americanos ,que perderam uma guerra que parecia facil ( como todo inicio de guerra ), o vietnã do sul, que foi incorporado ao norte , o vietnã do norte , hoje apenas vietnã , que teve que ceder seu ideário ao novo capitalismo ( a ponto de os tuneis servirem de atração turistica , paga claro ), produzindo artigos de luxo, com mão de obra semi-escrava , para consumo no ocidente.
    -parece lugar comum, mas não dá para esquecer bob dylan e sua blowing and wind …( ok ,não vou descrever , deixe que Eduardo Suplicy o faça .)

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